Os celtas e a natureza

  14/04/2016

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(Esse é o primeiro post da série “Natureza e o Outro Mundo na cultura celta”. Continue visitando o blog para ler a próxima parte!)

É claro que você já reparou: em todas as histórias as fadas são seres da natureza, seja porque cuidam da natureza, porque moram nela, ou porque levam toda sua vida em sintonia com o mundo natural. Sendo parte do folclore celta, a figura das fadas e sua ligação com a natureza provavelmente surgiu da própria relação que esse povo tinha com os elementos naturais, talvez até como uma forma de compreendê-los.

As pessoas de antigamente viviam muito mais próximas da natureza do que nós vivemos hoje, e olha que nem precisamos ir tão longe assim: nossos avós mesmo já eram bem mais ligados no comportamento dos animais, nas épocas certas de cada fruta e nos remédios naturais pra todo tipo de problema. Se já era assim menos de 100 anos atrás, imagina então na época dos celtas, lá pra 600 A.C. (antes de Cristo)! Sem toda a tecnologia e comodidade que temos hoje as pessoas tinham que conhecer muito bem os ciclos da natureza pra não se perderem, morrerem de fome, e todas essas coisas horríveis que hoje na maioria das vezes nem passam pela nossa cabeça (obrigada google maps e restaurantes 24h haha).

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1. Os ciclos da natureza

É impossível saber quando os antigos povos da Europa começaram a observar e registrar os movimentos do sol, da lua e das estrelas, mas com certeza quando eles ainda eram caçadores e coletores – há uns 2,5 milhões de anos atrás – a habilidade de se orientar pela posição das estrelas já era fundamental na hora de voltar pro acampamento depois de passar uma temporada perseguindo rebanhos pelas florestas. As mudanças das estações também eram bem importantes porque mostravam o momento certo de começar várias atividades dos ciclos anuais, como a época de coletar certas frutas e raízes ou de fazer um estoque de comida antes do próximo período de escassez. As comunidades que viviam perto do mar, como se imagina que era o caso dos povos celtas, tinham também as marés como mais uma forma de observar essas mudanças, especialmente os ciclos lunares.

Já deu pra perceber que a vida dos povos antigos dependia completamente dos ciclos de morte e renascimento da natureza, né? Com o surgimento da agricultura – por volta de 6.000 A.C. – esses povos passaram a levar um estilo de vida mais sedentário e ficaram ainda mais próximos dos ciclos das estações, já que eram elas que indicavam a época do plantio, da colheita, além dos diversos cuidados com os rebanhos (e é assim até hoje, viu?). Estar sempre em sintonia com os ritmos da passagem do tempo e das estações, mais a ajudinha de oferendas às divindades que governavam esses ciclos, garantia a fertilidade e produtividade das plantações e rebanhos.

Stonehenge, monumento megalítico que marca a passagem do tempo

Stonehenge | Fonte: http://cynnalia-stock.deviantart.com/

2. Stonehenge

Podemos ver claramente a sofisticação com que essas comunidades mediam o tempo pelas construções que elas nos deixaram: grandes túmulos e monumentos relacionados a eventos naturais como os solstícios e equinócios. São construções que encantam e atiçam nossa curiosidade até hoje, como o famoso círculo de pedras Stonehenge, que foi projetado para marcar o nascer do sol no solstício de verão e o pôr do sol no solstício de inverno.

Os túmulos megalíticos, um pouco menos conhecidos, são construções de pedra com passagens e câmaras que guardam restos humanos. No túmulo de New Grange, na Irlanda, as pedras foram cuidadosamente alinhadas de forma que ao nascer do sol no solstício de inverno os raios solares brilhassem através de uma fenda no teto até iluminar uma espiral tripla entalhada numa pedra da câmara central. É fato que só podemos imaginar o que isso significava para aqueles povos, mas vai dizer que não tem um ar místico?

Com essas evidências quase não há dúvidas de que há 4.000 anos – época das construções megalíticas – os povos europeus, como os celtas, já tinham desenvolvido um profundo entendimento do calendário solar e lunar, o que só pode ter sido alcançado com uma observação atenta e cuidadosa, além de registros minuciosos ao longo de muitos anos. E esse entendimento era tão importante que mobilizou comunidades inteiras a erguer verdadeiros monumentos arquitetônicos arranjados de forma a evidenciar esses ciclos.

Qual era a motivação para toda essa mobilização podemos apenas imaginar: talvez prestar homenagem aos deuses que controlavam os céus? Se beneficiar do poder liberado nesses dias especiais? Ser capaz de registrar a passagem do ano? Ou ainda outro motivo: demonstrar o conhecimento da comunidade sobre os ciclos da natureza e sua habilidade de “conter” esses fenômenos. Podia ser uma parceria dos humanos com as divindades, uma forma de garantir um pouco de ordem no caos e na incerteza do mundo natural.

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3. E eu com isso?

Um pouco dessa relação dos antigos povos da Europa com a natureza permeia nossa cultura até hoje, é só reparar. Os monumentos erguidos em homenagem a passagem do tempo são bem diferentes, como observatórios cheios de tecnologia e estações meteorológicas, mas o fascínio pelos fenômenos naturais continua o mesmo. Os ciclos naturais ainda governam as épocas de plantio – que o digam os fazendeiros quando vem uma seca fora de época! – e os solstícios e equinócios ainda são importantes referências de passagem do tempo – o Natal sempre marcando a chegada do verão, a Páscoa anunciando a chegada do outono, entre tantos outros. Hoje contamos mais com a ciência do que com as divindades pra garantir uma sensação de ordem no mundo natural, mas a frustração e a impotência que sentimos quando os ciclos das estações não se comportam como a gente espera devem ser iguaizinhas as que os celtas sentiam.

Sabendo de tudo isso fica quase fácil viver um pouquinho mais perto das fadas, né? É só observar e celebrar os ciclos da natureza, nos libertar um pouco de tecnologias sufocantes e nos entregar a essas maravilhas que fazem o coração dos humanos bater mais forte há mais de 2 milhões de anos.

Como é a sua relação com a natureza?

Referência: Druids: A Very Short Introduction, B. Cunliffe, 2010.

No próximo post da série você vai entender como a natureza está relacionada com as divindades celtas e o Outro Mundo, aquele lugar mágico e não-físico onde vivem as fadas desse folclore. Se você não quiser perder essa continuação é só se inscrever na lista de e-mails do Fada Moderna aqui embaixo 🙂

 

 



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4 thoughts on “Os celtas e a natureza

  1. Nana Muci

    Muito introspectivo Mavee, sempre penso por que perdemos essa conecção com a natureza? não é triste?
    no momento e para sempre minha fé é na grande mãe natureza, tudo que ela pode nos ensinar, o que aprendemos com ela, vem da simplicidade de nossos atos e do fluxo continuo da natureza, totalmente independente de nós, mas que sofre com as mudanças feitas pelos seres humanos, como exemplo o que você falou sobre os templos hoje construídos, a tecnologia que em parte nos ajuda a cuidar da natureza e em parte a destroí, para mim o povo celta sempre terá algo a ensinar, algo que muitos esqueceram.

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    1. Maeve Post author

      É verdade, Nana, a única coisa com que sempre podemos contar é a natureza, é muito triste termos perdido tanto da nossa conexão com ela 🙁 Mas tendo consciência disso podemos escolher mudar, né? Respeitar a natureza e prestar atenção nas pequenas oportunidades de estarmos próximas dela 🙂 Por isso acho tão legal seus textos sobre jardinagem, é uma ótima forma de estar perto da natureza!

      Beijoss

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  2. Luly

    Eu sempre fico pensando em como as pessoas sabiam muito mais do que a gente imagina que elas sabiam a 100, 1000, 10000 anos atrás! É graças a esse conhecimento acumulado, no fim das contas, que nós chegamos ao nosso conhecimento que temos hoje, né! Muito impressionante, Stonehenge é um exemplo maravilhoso do trabalho absurdo que as pessoas tinham para conseguir melhorar seu estilo de vida e que acabou ficando para a gente como um legado!

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    1. Maeve Post author

      Muito verdade isso! Hoje parece que as pessoas acham que tudo de antigamente é antiquado ou caipira, não percebem como é só por causa de “antigamente” que existe hoje. Os monumentos são muito incríveis mesmo, quero só ver se os monumentos modernos vão durar tanto assim também haha

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