Lendas Celtas: Um Conto de Fadas Irlandês

  24/09/2017

Lenda celta que conta a história da filha do sapateiro que foi enfeitiçada pela rainha das fadas e se tornou a rainha de Tara

As histórias sobre as fadas foram passadas de geração em geração pela tradição oral dos países celtas. Muito do que sabemos hoje sobre as fadas, seu mundo e seus costumes vem do trabalho do antropólogo americano W.Y. Evans-Wentz. Entre 1909 e 1910 ele viajou pelos países de cultura celta e registrou histórias e crenças contadas pelos camponeses mais idosos de cada lugar por onde passou. O resultado desse trabalho foi o livro The Fairy-Faith in Celtic Countries, um verdadeiro tratado sobre a crença nas fadas.

Uma das lendas, registrada na Irlanda, me chamou a atenção por parecer uma mistura dos elementos de A Bela Adormecida, Rapunzel e Cinderela. E tudo com um toque inconfundível de folclore irlandês: a colina de Tara, changelings, ferro e o incompreensível humor feérico. Segue uma tradução livre da história How the Shoemaker’s Daughter became the Queen of Tara.

1. A Lenda

Lenda celta que conta a história da filha do sapateiro que foi enfeitiçada pela rainha das fadas e se tornou a rainha de Tara

Como a Filha do Sapateiro se tornou a Rainha de Tara*

Nos velhos tempos, vivia um sapateiro e sua esposa lá perto do Fosso Knowth, e seu primeiro filho foi levado pela rainha das fadas que moravam dentro do fosso, e um pequeno leprechaun foi deixado em seu lugar. A mesma troca foi feita quando o segundo filho nasceu. No nascimento do terceiro filho, dessa vez uma menina, a rainha das fadas voltou e ordenou a um de seus três servos que levassem a criança; mas a criança não podia ser movida por causa de um grande pedaço de ferro, muito pesado para levantar, que estava no peito do bebê. O segundo servo e depois o terceiro falharam como o primeiro, e a própria rainha não conseguia mover a criança. A mãe, que estava sem alfinetes, havia usado uma agulha para prender a roupa da criança, e era isso o que pareceu as fadas como um pedaço de ferro, pois naquela época havia virtude no aço.

Então a rainha das fadas decidiu conceder presentes a criança; e aconselhou cada um dos três servos a dar, por sua vez, um presente diferente. O primeiro disse: “Que ela seja a mais grandiosa dama do mundo”; o segundo disse: “Que ela seja a melhor cantora do mundo”; e o terceiro disse: “Que ela seja a melhor alfaiate** do mundo”. Então a rainha das fadas disse: “Seus presentes são todos muito bons, mas eu vou dar um presente melhor do que qualquer um deles: a primeira vez que ela sair de casa, deixe-a voltar para a casa sob a forma de um rato.” A mãe ouviu tudo o que as mulheres fada disseram, e por isso nunca permitiu que a filha saísse da casa.

“Quando a menina atingiu a idade de dezoito anos, aconteceu que o jovem príncipe de Tara, passando por perto em uma caçada, ouviu-a cantar, e ficou tão fascinado com a música que ele parou para escutar; e, estando a música terminada, ele entrou na casa e, ao ver a maravilhosa beleza da cantora, pediu-lhe que se casasse com ele. A mãe disse que não poderia ser e, tirando a filha da casa pela primeira vez, a trouxe de volta a casa em um avental sob a forma de um rato, para que o príncipe entendesse a recusa.

Este encantamento, no entanto, não mudou o amor do príncipe pela bela cantora; e seja explicado que houve um dia acordado com seu pai, o rei, para que todas as grandes damas da Irlanda se reunissem nos Salões de Tara, e que a mais grandiosa dama, e o melhor cantora e a melhor alfaiate seria escolhida como sua esposa. Quando ele acrescentou que cada dama deveria chegar em uma carruagem, a rata falou com ele e disse que ele deveria mandar para a casa dela, no dia indicado, quatro gatos malhados e um baralho de cartas, e que ela faria sua aparição, desde que no momento em que sua carruagem chegasse aos Salões de Tara, ninguém, salvo o príncipe, fosse permitido chegar perto dela; e, finalmente, disse ao príncipe: “Até o dia acordado com seu pai, você deve me levar como uma rata no seu bolso”.

“Mas, antes do grande dia chegar, a rata tinha falado tudo o que aconteceu para uma das mulheres fada, e então, quando os quatro gatos malhados e o baralho de cartas chegaram à casa da garota, as fadas transformaram os gatos nos quatro cavalos mais esplêndidos do mundo e o baralho de cartas na mais maravilhosa carruagem do mundo; e, à medida que a carruagem partia do Fosso para Tara, a rainha de fadas bateu as mãos e riu, e o encantamento sobre a menina estava quebrado, de modo que ela se tornou, como antes, a mais linda do mundo, e ela estava sentada na carruagem.

Quando o príncipe viu a maravilhosa carruagem chegar, ele sabia de quem era, e saiu sozinho para encontrá-la; mas ele não podia acreditar em seus olhos ao ver a dama dentro. E então ela contou sobre as bruxas e fadas, e explicou tudo.

Centenas de damas haviam vindo para os Salões de Tara de toda a Irlanda, e cada uma tão grandiosa quanto poderia ser. O concurso começou com o canto e terminou com a alfaiataria, e a jovem foi a última a aparecer; mas, para o espanto de toda a companhia, o rei teve que admitir que a mulher estranha era a mais grandiosa dama, a melhor cantora e a melhor alfaiate na Irlanda; e quando o velho rei morreu, ela se tornou a rainha de Tara.

* Na mitologia irlandesa, Tara era um lugar sagrado habitado pelos deuses e lá havia uma entrada para o Outro Mundo (o reino das fadas). Diz-se também que era o centro do poder na Irlanda antiga.

** No original era “mantle-maker”, uma costureira especializada em fazer mantles, um tipo de casaco parecido com uma capa que era usado pelas damas quando elas saíam de casa.

 2. Semelhanças com outras histórias

Lenda celta que conta a história da filha do sapateiro que foi enfeitiçada pela rainha das fadas e se tornou a rainha de Tara

Como em A Bela Adormecida, o bebê da história recebe quatro presentes das fadas, sendo que um deles mais se parece com uma maldição. A diferença é que isso não acontece porque o bebê era especial, mas sim porque, no folclore irlandês, era comum a existência dos changelings, seres encantados que eram deixados no lugar dos bebês humanos levados pelas fadas.

Como em Rapunzel, um príncipe que passava pelas redondezas ouve o maravilhoso canto da donzela e se apaixona por ela. A diferença é que o obstáculo em seu caminho não era nenhuma bruxa má, mas sim a maldição da rainha das fadas.

Como em Cinderela, há uma fada madrinha, uma carruagem e uma grande reunião num castelo para decidir quem será a nova princesa. Uma das mulheres fadas ajuda a donzela a transformar objetos mundanos numa carruagem incrível para que ela pudesse ir ao baile.

3. Elementos do folclore das fadas

Lenda celta que conta a história da filha do sapateiro que foi enfeitiçada pela rainha das fadas e se tornou a rainha de Tara

No final, parece que a rainha das fadas não havia lançado a “maldição” por mágoa ou ressentimento. Quando ela vê a esperteza da donzela em driblar sua condição, a rainha das fadas acha tudo muito divertido, ri e transforma a donzela novamente em humana. Essa é uma das principais características das fadas na cultura celta: elas têm um humor muito diferente dos humanos e podem fazer “graças” que os humanos não acham nem um pouco divertidas.

Outra característica que aparece em muitas histórias do livro de Evans-Wentz e também na literatura moderna sobre as fadas (como nas séries The Modern Fairy Tales e Os Encantados de Ferro) é a impossibilidade das fadas de tocarem em ferro, podendo se machucar seriamente caso façam isso.

E você, o que achou dessa versão feérica dos típicos contos de fadas?

Fonte da história: Tradução livre do relato “How the shoemakers daughter became the queen of Tara” retirado do livro The Fairy Faith in Celtic Countries, por W.Y Evans-Wentz.

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Guarda-Roupa Medieval: Acessórios

  16/09/2017

Dicas de acessórios para o seu visual medieval. Tem colar, diadema, coroa e earcuff.

Depois de encontrar o vestido perfeito, a próxima busca é pelos acessórios perfeitos para complementar o visual.

Um aspecto MUITO importante para mim quando se trata de roupas e acessórios medievais é que a peça seja realista. Não pode ter pedras de plástico, cara de industrializada ou, pior ainda, de fantasia.

Tem que ser algo que uma pessoa usaria de verdade lá no reino encantado, seja passeando pela floresta, jogando conversa fora na taverna ou dançando ao som da música das fadas. Não foi fácil, mas quando segui esse critério encontrei vários acessórios incríveis <3

Acessório diadema de pedra natural da loja Elestial

1. Diadema e Coroa

O diadema é o acessório de cabeça que mais me lembra uma peça feérica. Talvez por causa dos elfos em O Senhor dos Anéis, os diademas são muito populares entre os amantes da fantasia medieval. Mas eles são difíceis de encontrar, especialmente os que usam pedras naturais.

Esse da foto eu comprei na Elestial, assim como todos os outros acessórios desse post. Pensa se não estou viciada no trabalho dessa artesã incrível <3 O que mais me chama a atenção nas peças da Elestial é o design super delicado e o metal em cobre, com essa tonalidade linda que se destaca na pele.

Acessório coroa de pedras naturais da loja Elestial

Tanto no diadema de labradorita quanto na coroa de cianita a pedra bruta e o metal parecem se entrelaçar tão naturalmente que me faz lembrar as construções dos elfos de Lothlórien. É a natureza e a criatividade humana se unindo para criar uma verdadeira jóia feérica.

Acessório colar medieval de fadas de pedras naturais da loja Elestial

2. Colar

O colar é outro ponto de destaque do visual. E se for daqueles mais curtos, quase como gargantilhas, melhor ainda. Assim eles acrescentam brilho perto do rosto e não atrapalham a beleza do design do vestido.

Acessório colar medieval de fadas de pedras naturais da loja Elestial

O que mais gosto no colar da foto é a forma como as três ametistas foram combinadas num design delicado, mesmo a pedra principal sendo bem grandinha. Outro detalhe que amo é o fecho dessa peça, ou melhor, a falta de fecho. O colar se encaixa nos ombros e ficam duas espirais decorando as costas. Agora só preciso aprender a fazer penteados para aproveitar toda a beleza dessa peça <3

Acessório earcuff medieval de fadas de penas da loja Elestial

3. Earcuff

Acessório de orelha é um detalhe subestimado. Poucas pessoas usam, mas ele sempre deixa o visual mais interessante. Se for de pena, como esse da foto, também deixa o conjunto mais rico em textura e cores.

Gostei muito da forma como esse earcuff prende na orelha. Você pode ajustá-lo pro tamanho da sua própria orelha e ele não cai jamais, o que é essencial pra você não perder seu acessório (como eu fiz da primeira vez em que usei acessórios de orelha num Jantar Medieval ;-;).

A Elestial tem muitos outros modelos de acessórios e você pode conhecer todos na fanpage da loja. Todas as peças são lindas, os preços são justos e a Thatiana é super atenciosa. Recomendo demais o trabalho dessa artesã incrível <3

E você, já tem acessórios para a sua roupa medieval? Qual é o seu acessório favorito?

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Caprice: Música das Fadas

  07/09/2017

Caprice, banda de música de fadas e elfos

O Caprice é uma banda russa de música élfica e feérica. São 9 integrantes que se dividem entre instrumentos da música clássica e uma vocalista com a voz de uma verdadeira rainha das fadas. Sério, não dá pra explicar a voz dessa mulher! É delicada e assombrada ao mesmo tempo.

A voz combina perfeitamente com a melodia das músicas, que parece vinda direto do Mundo das Fadas. Quando você ouve só consegue se imaginar nas terras de lá, dançando num círculo de fadas, caminhando na floresta ou ouvindo histórias numa taverna.

A banda começou sua carreira com uma trilogia inspirada pelas obras de J.R.R.Tolkien e desde então já produziu 6 álbuns feéricos.

Caprice, banda de música de fadas e elfos, Elvenmusic

1. Elvenmusic

No primeiro álbum, Elvenmusic, cada faixa é uma versão cantada de diversos poemas da obra do Tolkien anterior a O Senhor dos Anéis. As músicas retratam desde passagens famosas como a queda do reino anão na Montanha Solitária e a história trágica de Amroth e Nimrodel, até poemas pouco conhecidos, como Princess Mee.

O álbum também traz uma música contando a história de como a rainha de Elfland se apaixonou pelo humano True Thomas. Essa lenda não é da obra do Tolkien, mas é um clássico na literatura feérica e está descrita no livro The Fairy Bible.

Caprice, banda de música de fadas e elfos, Girdenwodan Part 1

A história continua em Elvenmusic 2: The evening of the Iluvatar’s children. O título do álbum remete aos últimos dias de convivência entre elfos, anões, orcs e humanos na Terra Média, como é descrito em O Senhor dos Anéis. Novamente, as faixas trazem a versão cantada de vários trechos do Tolkien, mas agora que se passam na época da trilogia do anel.

Tem a canção da Galadriel, a jornada do Sam até a fortaleza de Cirith Ungol, e várias, várias músicas sobre elfos <3 . A última música do álbum é um poema do Tolkien que conta sobre os barcos que partem para Valinor. Entre as faixas tem também outros poemas que não fazem parte de O Senhor dos Anéis, como o romance de Beren e Lúthien, que esse ano foi lançado como um livro separado pela Houghton Mifflin.

Caprice, banda de música de fadas e elfos, Girdenwodan Part 1

A trilogia termina com Elvenmusic 3: Tales of the Uninvited. O álbum é completamente diferente dos dois primeiros. As letras foram criadas pelo próprio Caprice e quase todas as músicas foram escritas em Laoris, um idioma feérico inventado pela banda.

Apenas uma faixa do álbum, Faeries Stole Bridget, é cantada em inglês e mostra a perspectiva humana sobre o Mundo das Fadas. A música narra o rapto da garota Bridget, que pisou num círculo de fadas e foi levada para o outro reino por sete anos mortais. Claramente ela não leu as dicas de como não irritar as fadas hahaha.

Caprice, banda de música de fadas e elfos, Elvenmusic 3, Kywitt Kywitt

2. Kywitt! Kywitt!

Totalmente diferente da trilogia Elvenmusic, o álbum Kywitt! Kywitt! tem algumas das músicas mais animadas da banda. As faixas mostram uma visão humana do Reino das Fadas, mas  pensa só os efeitos da música e da comida das fadas num simples humano, é claro que tudo vai ficar meio distorcido e até alucinado, né? hahaha

O álbum começa com Dundelion Wine, um convite para provar o vinho das fadas e ficar bem loko (uma das melhores do Caprice!). E segue alternado entre músicas que contam histórias de personagens, como da moça que foi cortejada e traída por um ferreiro, em Blacksmith, e músicas totalmente alucinadas, como a própria Kywitt! Kywitt!, que dá nome ao álbum.

Caprice, banda de música de fadas e elfos, Girdenwodan Part 1 e 2

3. Girdenwodan

A segunda série de álbuns feéricos do Caprice vem com Girdenwodan – Part 1 e Girdenwodan – Part 2. Segundo a banda, Girdenwodan é um tipo de dança muito praticada no mundo das fadas. A palavra “Girdenwodan”, porém, foi criada apenas para o uso humano e o verdadeiro nome da dança deve permanecer em segredo.

Esses álbuns são bem diferente da trilogia Elvenmusic, que tinha o vocal mais assombrado e etéreo, e de Kywitt! Kywitt!, que tem músicas com cara de fantasia medieval. Girdenwodan usa mais instrumentos clássicos e mesmo assim o Caprice consegue dar às músicas uma sonoridade claramente feérica. A sensação é de que cada música poderia estar tocando numa grande festa no Reino das Fadas, com muita dança ao ar livre. Não dá pra explicar, só ouvindo mesmo!

 

Todos os álbuns, menos Giderwodan – Part 2, estão disponíveis no Spotify. Agora é só colocar os fones de ouvido e partir pro Mundo das Fadas <3

E você, já conhecia o Caprice? Qual é a música que mais te lembra o mundo das fadas?

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